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Berlim: Arquitetura no auge do Neoclássico

Um resumo sobre a evolução da capital da Alemanha com a apresentação da trajetória da arquitetura em Berlim no período Neoclássico. Saiba quais são os principais exemplos que você não deve deixar de conhecer em uma visita à cidade.

Berlim é uma cidade de quase 1000 anos que, apesar de destruída pelos bombarbeios aéreos da 2ª Guerra Mundial, apresenta muitos dos seus testemunhos arquitetônicos bem restaurados e cuidados. Dentre estes destacam-se suas belas construções Neoclássicas.  

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Primórdios da cidade

Em 1237 foi fundada a cidade de Cölln an der Spree — no Rio Spree, enquanto as primeiras notícias de Berlin datam de 1244.  

Em 1307 as duas cidades, situadas frente a frente, em margens opostas do rio, se uniram — por isso esta é considerada a data da fundação de Berlim.

Após o século XV, a História de Berlim se confunde com a História da Alemanha. Ou seja, cem anos antes do Descobrimento do Brasil, Berlim já era uma cidade relevante da Europa sob o governo dos Hohenzollern, importante família da Prússia, cujos sucessores se tornaram os imperadores da Alemanha.

Um breve explicação sobre o Neoclássico

Este estilo artístico é considerado o anti-Barroco: opondo-se aos exageros tanto na arte e arquitetura, quanto dos monarcas absolutistas.

A volta à estética das obras Clássicas, dos antigos gregos e romanos, e a associação dos governos ao novo estilo artístico é a ligação com o Iluminismo.

Isso dava aos governos uma imagem ética, respeitosa, defensora dos direitos humanos e preocupada com o bem estar comum.

Assim, mesmo os príncipes herdeiros de casa reais que estavam há séculos no poder, como os austríacos Habsburg e os prussianos Hohenzollern, apressaram-se em incentivar a retomada da arte greco-romana, sobretudo na arquitetura do século XVIII.

(Para entender melhor o que era o Classicismo, leia o nosso post).

Arquitetura em Berlim: principais exemplos do Neoclássico

Brandenburger Tor — Portal de Brandeburgo 1791

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Fachada do Brandenburger Tor

O Brandenburger Tor, projeto do arquiteto Carl Gotthard Langhnus é coroado pela quadriga de bronze do escultor Johann Gottfried Schadow.

Foi construído entre 1789-1791, no reinado de Friedrich Wilhelm II, sendo uma das obras pioneiras do Neoclássico em Berlim.

O portal, situado entre o início da Avenida Unter den Linden e na borda da Pariser Platz, no centro histórico de Berlim, é o único remanescente dos 18 antigos portões de entrada na cidade.

O Brandenburger Tor, por ter sido o testemunho dos mais trágicos e relevantes eventos da História da Alemanha, tornou-se o monumento símbolo da cidade:  

  • 1806: como troféu da vitória de Napoleão sobre a Alemanha, a quadriga do Brandenburger Tor foi levada para Paris;
  • 1918: derrota da Alemanha na 1º Guerra Mundial;
  • 1936-1945: alterações nos monumentos da cidade sob o domínio do  Nacional Socialismo/Nazismo, de Adolf Hitler;
  • 1945: derrota na 2ª Guerra Mundial e a divisão de Berlim, e do país, em quatro zonas de ocupação militar: americana, inglesa, francesa e da União Soviética;
  • 1949: data da redivisão em República Federal da Alemanha, com capital em Bonn, e República Democrática da Alemanha, com capital na zona soviética de Berlim;
  • 1958: construção do Muro de Berlim, com 3,60 m de altura e 155 km de comprimento. Dividia a zona democrática da zona socialista soviética;
  • 1989: queda do Muro de Berlim, em 10 novembro;
  • 1990: reunificação da República Federal da Alemanha absorvendo a República Democrática e reunindo a capital em Berlim.
  • 2020: restauração da fachada Neoclássica do antigo Palácio Imperial, agora em moderno edifício, com museus e atividades culturais.

Neue Wache — Nova Casa da Guarda 1818

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Fachada da Neue Wache

Construída em 1818 na Avenida Unter den Linden,  por ordem do imperador Friedrich Wilhem III, abrigava a guarda do Palácio Imperial, situado defronte.

Uma das obras primas do renomado arquiteto Karl Friedrich Schinkel, é considerada como um dos mais belos exemplos do Neoclássico alemão.

A fachada é composta por seis colunas dóricas que sustentam o frontão triangular, apoiado em uma larga viga. A viga é ornada com seis estátuas de generais, obra de Christian Daniel Rauch.

O frontão — o triângulo sobre a viga — apresenta um relevo com cinco alegorias de vitórias do passado, de autoria do conhecido escultor Johann Gottfried Schadow. 

Em 1900 o edifício da Neue Wache foi reformulado para abrigar o correio e a central telegráfica militares.

Em 1914, foi neste local que se iniciou a mobilização militar para a 1ª Guerra Mundial. E em 1918, foi também ali coordenada a desmobilização das tropas derrotadas.

Em 1950 parte da fachada desabou como consequência dos bombardeios da 2ª Guerra. O edifício foi restaurado entre 1957-1960, e passou a servir como Memorial das Vítimas do Fascismo e do Militarismo . O interior da construção recebeu um prisma de vidro com a chama eterna.

Em 1990, com a reunificação alemã, o prédio foi novamente restaurado, removendo todos os elementos do governo anterior.

Em 1993, no dia do luto nacional, a Neue Wache foi reinaugurada, como um Memorial das Vítimas das Guerras e da Tirania. Berlim já estava consolidada como capital da República Democrática Alemã.

Schauspielhaus — Casa de Espetáculos 1821

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Fachada da Konzerthaus

Situada na Gendarmenmarkt — uma das mais bonitas e aprazíveis praças berlinenses — está a mais importante casa de espetáculos da cidade: a atual Konzerthaus Berlin.

A praça ocupada pela Schauspielhaus, atual Konzerthaus Berlin, é ladeada à esquerda e à direita por duas igrejas gêmeas: a Neue Kirche, Igreja Nova; e a Fransözicher Dom, Catedral Francesa.

As três construções compõem um conjunto Neoclássico raro e extremamente elegante, para não dizer único, na Alemanha.

A Schauspielhaus teve origem com o pedido do rei Friedrich Wilhelm III ao arquiteto Karl Friedrich Schinkel em 1817, para reprojetar o antigo teatro da cidade.

O novo auditório deveria acomodar 1200 espectadores e ter infraestrutura para dar suporte aos seus espetáculos: com oficinas, vestiários e salas de ensaio.

Em anexos seriam construídos salões de bailes e de concertos, complementados por restaurante e cozinha, com o objetivo de serem alugados em privado, para reduzir os gastos de manutenção da família real.

O projeto do arquiteto Schinkel foi aprovado por ter abrangido todos estes requisitos, antecipando-se em 100 anos aos conceitos recomendados pela Bauhaus de Walter Gropius, Peter Behrens e Mies van der Rohe:

A arquitetura deve ser concebida em ordem sequencial, pelos conceitos de: FUNÇÃO / ESTRUTURA / FORMA, sendo a forma subordinada à função e à estrutura.

Detalhes interessantes do Schauspielhaus

Em 1821 o edifício em estilo Neoclássico foi concluído e denominado Königliches Schauspielhaus — Casa de Espetáculos Real. É considerada, junto com a Neue Wache, entre as principais obras neste estilo na Alemanha.

Alguns eventos relevantes no local:

  • a estréia da casa de espetáculos em 1821 contou com a presença do rei Frederick Wilhelm III, tendo sido apresentado o poema Iphigenia von Tauris, de Wolfgang von Goethe;
  • em 1826 a Schauspielhaus apresentou pela primeira vez a 9ª Sinfonia de Ludwig van Beethoven, composta em 1824;
  • em 1842 Felix Mendelssohn Bartholdy regeu a orquestra;
  • em 1843 houve um recital de piano com Franz List;
  • em 1844 Richard Wagner regeu a sua ópera “O Holandês Voador”;
  • após 1848 a censura imperial se acentuou e os espetáculos passaram a ser triviais;
  • em 1919, após a 1ª Guerra, com a queda da monarquia, o teatro foi renomeado Preussisches Staatstheater;
  • entre 1944 e 1945 o teatro, situado no centro da cidade, foi severamente bombardeado e destruído nos últimos dias da Batalha de Berlim;
  • entre 1977 e 1984 a casa de espetáculos foi fielmente restaurada e mantida no estilo Neoclássico e foram feitas adaptações para as suas novas funções. Em 1984 passou a ser denominada Konzerthaus Berlin. O teatro foi reinagurado com um concerto de gala da Berliner Sinfonie-Orchester.

Altes Museum — Museu Antigo 1830

A imagem de abertura na parte superior deste post apresenta o Altes Museum, o primeiro museu construído no Lustgarten, o Jardim da Alegria, iniciando com esta construção a implantação da Ilha dos Museus.

Construído entre 1823 e 1830 com projeto mais uma vez realizado pelo renomado arquiteto e urbanista  Karl Friedrich Schinkel, este edifício logo se destacou como um ótimo exemplo de arquitetura na Berlim Neoclássica, alinhando-o entre os melhores exemplos do estilo no país.

Para entender o contexto da época é bom saber que o rei Friedrich Wilhelm III foi estimulado a mostrar as coleções de arte da corte à nova burguesia consciente do papel que estavam prontos a desempenhar na sociedade de então. Isso foi fortalecido pelos ideais Iluministas do Barão Alexander von Humbold.

A coordenação do projeto do museu, a cargo de Schinkel, teve a colaboração do então futuro rei Friedrich Wilhelm IV (1840-1861) que planejava para o Lustgarten uma implantação Classicizante — outra denominação para o estilo Neoclássico.  

Schinkel conceituava o Lustgarten como um conjunto importante na arquitetura da Berlim neoclássica simbolizando o poder da Alemanha:

  • na porção sul do Lustgarten já existia o Palácio dos Hohenzollern — símbolo da potência mundial. Sua fachada foi restaurada somente em 2020;
  • na porção leste está o Arsenal Real — uma representação da força militar do Império;
  • o oeste já existia a Catedral de Berlin, a Berliner Dom. Inicialmente barroca foi reformada por Schinkel em estilo Neoclássico — a qual depois foi parcialmente descaracterizada;
  • na ala norte foi projetado o Museu Imperial, desinado à educação cultural do povo, atualmente denominado Altes Museum.

Algumas datas e eventos importantes no local

  • no período do Nacional Socialismo o museu e o Lustgarten foram utilizados para manifestações e marchas políticas;
  • em 1942 o acervo do museu foi tranferido para um abrigo seguro;
  • em 1941 e 1943 o museu foi bombardeado;
  • em 1945 a instituição foi destruída pela explosão de caminhão de munições estacionado ao lado do museu;
  • a reconstrução do museu foi realizada de 1951 a 1966, segundo o projeto do arquiteto Schinkel .

Alte Nationalgalerie — Antiga Galeria Nacional 1861

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Fachada do Neues Museum

O edifício Neoclássico que abriga a Alte Nationalgalerie, tem como partido arquitetônico e estético os templos gregos, notadamente o Parthenon de Atenas.

A cobertura do prédio retangular é apoiada em uma larga viga que contorna o edifício, sustentada por uma colunata. As fachadas são definidas por dois frontões ornados com alegorias.

Para destacar visualmente o conjunto da praça plana o arquiteto Friedrich August Stüler, criou um andar térreo para elevar a edificação principal.

O conjunto é sublinhado por uma escadaria monumental, a qual sustenta em seu topo uma bela estátua equestre do rei da Prússia Friedrich Wilhelm IV. Como complemento a escultura exibe quatro alegorias: à Religião, à Arte, à História e à Filosofia.

O acervo do museu foi criado em 1861 a partir de 262 obras de arte doadas pelo banqueiro Joachin Wagener. Ainda hoje estas obras são a base do acervo atual, instalado no início em áreas da Academia das Artes, na avenida Unter den Linden.

O projeto de August Stüler partiu de esboço de autoria do rei e ficou pronto em 1862. A aprovação só ocorreu em 1864, mas o arquiteto morreu no ano seguinte!

Os detalhes finais ficaram a cargo do arquiteto Carl Buse e o prédio foi inaugurado apenas em 1876: após nove anos de construção e já no Deutsche Reich — o Império da Alemanha, proclamado em 1871.

Guerra e Restauro

Durante a 2ª Guerra o edifício também foi muito danificado, perdendo parte do seu acervo. Reabriu parcialmente em 1949 e plenamente apenas em 1955.

Entre 1998 a 2001 foram realizadas grandes reformas para abrigar novamente as obras de arte de Berlin Oriental e Ocidental unificadas

Der Lustgarten — O Jardim da Alegria

A grande praça Lustgarten, implantada na Ilha do Rio Spree, tem origem na reurbanização da Horta Imperial —  uma grande área equivalente a dois quarteirões de 100×100 m, alí existente desde 1573.

Der Lustgaten — o Jardim da Alegria, tem como limites a leste e oeste os canais do Rio Spree, ao norte o Altes Museum e ao sul, o Palácio Imperial —que no ano de 2020 teve a sua fachada neoclássica fielmente reconstruída.

A horta era separada do Palácio Imperial por uma trilha, posteriormente alargada, na qual em 1647 foi implantada uma aléia de tílias, daí a origem do nome da mais importante avenida de Berlin: Unter den Linden – Sob as Tílias. 

Desde 1465 ali já havia sido construída na área leste junto ao Rio Spree, uma igreja Barroca que posteriormente, após reforma Neoclássica e readaptações, veio a ser a Catedral Luterana de Berlin — a Berliner Dom.

A partir do fim da 1ª Guerra Mundial a praça passou ser o palco das grandes manifestações políticas e sociais da cidade, dentre as quais destacamos:

  • 1922: Nie wieder Krieg – Nunca mais guerra. Com 250.000 presentes, um protesto popular condenando a derrota na 1ª Guerra Mundial;
  • 1933: contra o então recém nomeado Chanceler Adolf Hitler, com 200.000 presentes. Infelizmente a manifestação popular não teve sucesso, para pesar da História da Alemanha e do mundo;
  • 1936: marcha e 1ª corrida dos participantes dos Jogos Olímpicos de Berlim, evento até então inédito. Mesclou objetivos esportivos aos políticos dos nazistas;
  • 1941-1945: a Alemanha e especialmente Berlim foram bombardeadas e arrasadas ao serem derotadas na 2ª Guerra. O país e a cidade foram divididos em quatro zonas de ocupação: americana, inglesa, francesa e russa;
  • 1950: com a zona russa transformada em República Democrática da Alemanha, Walter Ulbrich ordenou a demolição do Palácio Imperial;
  • 1951: como grande afronta Der Lustgarten foi rebatizado Marx-Engels Platz;
  • 1973: foi construído o Palácio da República sobre os alicerces do Palácio Imperial;
  • 1989: queda do Murro de Berlin;
  • 1990: reunificação da Alemanha.

Arquitetura Neoclássica em Berlim: uma consideração

Agora que você já está apresentado aos principais exemplos da arquitetura Neoclássica em Berlim aproveito para ressaltar que estas construções são um testemunho material de um dos períodos mais gloriosos na formação da Alemanha.

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